24 dezembro 2006

Natal realmente Natal

“O que nos vale é as prendas que recebemos ao longo do ano… Alguns sorrisos, umas carícias, um elogio e, porque não, uma repreensão que, de quando em vez, nos torna um bocadinho melhores, mais fortes”.

Assim pensava o protagonista desta breve estória – o Rodrigo.


Rodrigo mora sozinho. Tem 43 anos e é artista plástico. Na véspera de Natal, ritualmente, senta-se num pequeno sofá do estúdio, em frente às telas inacabadas e às esculturas de mármore abandonadas pela inspiração.

Também ele, nesta noite, se sente um pouco abandonado. Casara aos 18 anos com a mulher mais bonita da cidade, que engravidara numa noite tranquila e apaixonante, eram ainda namorados. Casaram à pressa, mas com a certeza que tinham feito a escolha certa. Infelizmente ela morrera no parto e o filho, o pequeno Diogo, viria a falecer três dias depois. O suficiente para dizer no pranto compulsivo dos recém-nascidos “Olá papá!” e “Adeus, vou ter com a mamã!”…

Desde esse dia que Rodrigo perdera a vontade de criar. Às vezes, a pedido de amigos, pinta um ou outro quadro. Porém, fá-lo mais pelo dinheiro que ganha do que pelo prazer de pintar. Desde então, tem-se dedicado à escrita. Escreve regularmente para uma revista e para dois jornais, o que lhe garante uma subsistência razoável.

A noite da consoada é a mais difícil de passar. O vazio das telas, o pó nos pincéis e a ausência dos que ama tornam as horas e os minutos insuportáveis. O telefone toca várias vezes durante a noite. Diferentes pessoas, amigos principalmente, deixam uma mensagem de boas festas. Mensagens que lhe custa ouvir, porque só o fazem sentir cada vez mais só. Em todas as mensagens ouve-se ao fundo gargalhadas de crianças e pessoas a conversar e ele imagina o ambiente de festa que os amigos estão a viver.

Dias depois, como sempre, irá agradecer as mensagens, mas esta noite ficará em silêncio. Num silêncio igual ao do estúdio onde mora. Não dá nem recebe prendas. Deus tirou-lhe as dádivas que um dia lhe tinha oferecido e ele sente alguma mágoa misturada com uma raiva inexplicável, ou nem tanto.

Esta noite, Rodrigo faz-se acompanhar de uma garrafa de Gin, que lhe fará companhia até chegarem os primeiros raios de sol, altura em que irá adormecer, concerteza. Pensa na mulher e no filho. Castiga-lhes a ausência, lamenta o infortúnio que a má sorte lhe trouxera. A noite da consoada, para o Rodrigo, não é noite de partilha. É noite de estilhaços de dor e de um coração pobre, despedaçado.

É, no fundo, uma noite diferente da tua!

Como sei que estarás em família e que, à meia-noite, se espalham sorrisos e beijos e abraços na tua casa… e se ouvem gargalhadas de crianças curiosas, que rasgam o papel de embrulho, para confirmar se o Pai Natal acertou este ano nos desejos delas…

Como sei que poderás olhar a teu redor e saberás que estás na companhia de quem amas, peço-te, como se de uma prenda de natal para mim fosse, que tenhas consciência da existência, pelo mundo, de pessoas que não vão ter oportunidade de receber um sorriso sequer. E, muito pior, não têm capacidade para dar nada, senão o sofrimento que os sufoca, noite após noite.

Que tenhas um Natal tranquilo e que, ao mesmo tempo que estenderes as mãos para dar ou receber, não tenhas de receio de dizer “Eu amo-te!” às pessoas que realmente amas. Nem que seja pelo Rodrigo ou pelo Diogo.

Texto de Rui Fonte

3 comentários:

jika13 disse...

Este rapaz escreve muito bem! LOL

Anónimo disse...

Não gosto nada destes textos. Não são inocentes como as mensagens que querem passar. Estão presentes preconceitos, moralismos, paternalismos e sobretudo uma sensibilidade fútil.

"...não têm capacidade para dar nada, senão o sofrimento que os sufoca, noite após noite."

bahhhhhhhhhhh... E o Sr. Rui Fonte? Será que tem capacidade para dar alguma coisa?

"...não tenhas de receio de dizer “Eu amo-te!” às pessoas que realmente amas."

:)... as pessoas são muito mais complexas do que isso. E se acha mesmo que dizer "amo-te" resolve alguma coisa, concorra ao próximo concurso de misses. Aí, o seu discurso merecerá, com certeza, a nota máxima.

Achadiça disse...

Excelente texto, mesmo que a mensagem seja pessoal e intencionalmente dirigida ao autor deste berloque. Parabéns Rui Fonte.
Boas bicadas

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